Música e outras coisas
O LEGADO DA CONFISSÃO
O sono desapareceu
E a madrugada transcorre sob as bênçãos da bondade leviana
Sem beleza ou verdade,
É ela apenas uma insensata forma de expiação
O inócuo anteparo da morte
A lantejoula que adorna o traje severo dos anos
Visto o meu manto salpicado de hera
E em meio a golfadas e oferendas
Escuto rumores sobre brevidade tragicômica da existência
O sono postergado é como a fome interrompida
É como o brilho opaco de uma manhã sem sol
Recolho-me à angústia que revira o estômago,
E caminho a esmo, murmurando o cântico vazio
A chuva intermitente pune a minha trajetória perplexa
Avoco para mim a dissidência íntima
O desacordo frente a mim mesmo,
O fogo fátuo perece no âmago da penumbra furiosa
Fazendo gritar em mim a inocência impura
Resistir é esquecer
E me resguardo com a empáfia do burocrata.
Que venham a brutalidade e a desordem!
Que venham até o cais os barcos incendiados!
É preciso que se dê nome aos dias e às noites
Hoje é necessário que a tranqüilidade seja humilhada
É preciso dar um basta à quietude
Os reféns do desejo, os hóspedes da vontade
É preciso vê-los arder,
Impõe-se agora silenciar a canção da glória
Escarrar na face da sutileza
Engravidar de ódio os modos gentis
Somente quando os escalpos tremularem sob os céus de abril
E o sangue preencher os sulcos do caminho
A nossa desconfiança será justificada
Esmagar os cacos da sabedoria,
Vergastar a polidez e a virtude,
Compreender o inominável...
Não, não haveremos de ser caridosos
Nem responderemos ao chamado da hora mínima
O beijo de Caim, a sedução do pária
Manterão abrandado o coração exangue
Embebedemo-nos na lógica absurda da nossa animalidade
Celebremos a hipocrisia outonal, os disfarces enrugados
E quando as entranhas quedarem expostas
E o alumbramento for o reverso da penitência
Quebraremos o aquário onde moram os homens
Ouçamos, então, o barulho nefando dos rabiscos na areia
Atentemos para a dicção dos mentecaptos
Ouçamos seu discurso amorfo,
Sua loquacidade vívida sobre o nada...
O meu tempo é vão e corre amordaçado
Suplico pela desatenção emprestada
E retribuo com a incontinência da verdade
Ah! caminho inexato,
Percorro-te qual um espelho de sombras
Sou fóssil desperto pela textura dos faróis
Vivente desolado e titubeante
Com as mãos estendidas para o trapézio
Cuja rede ausente é o quanto há por demais em mim
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Salvatore “Sal” Nistico, o robusto saxofonista tenor norte-americano, nasceu na cidade de Syracuse, estado de Nova Iorque, no dia 02 de abril de 1938. Tinha apenas 09 anos de idade quando iniciou seu aprendizado e sua prática no sax alto. Em 1954, quando contava com 16 anos, mudou para o sax tenor, instrumento com o qual iniciou a carreira profissional, tocando em diversos grupos de “rhythm & blues” da Costa Leste.
Nistico ganhou notoriedade no mundo do jazz graças ao patrocínio de dois dos maiores expoentes do sax tenor: Sonny Rollins e Gene Ammons, admiradores confessos do seu estilo e, curiosamente, duas de suas influências mais perceptíveis. Outros saxofonistas também foram bastante importantes em sua formação, especialmente os tenoristas Vido Musso e Sonny Stitt, além do indefectível Charlie Parker.
Em 1959 ingressou no grupo “The Jazz Brothers”, liderado pelos irmãos Chuck (trompetista e compositor) e Gap (pianista e arranjador) Mangione. Em 1962, Sal foi contratado pelo bandleader Woody Herman, para ser o principal solista da sua orquestra. Honrando a tradição de sempre contar com tenoristas de primeira linha, Woody recrutou o jovem Nistico para ocupar o lugar que pertenceu a luminares como Flip Phillips, Stan Getz, Zoot Sims, Al Cohn, Gene Ammons e Billy Mitchell. O jovem de apenas 22 anos permaneceu ali até 1965, quando integrou-se à “máquina de swing” de Count Basie.
A associação com Basie durou apenas cinco meses, mas foi de extrema valia. Nistico aparece no documentário “Count Basie And His Orchestra”, produzido para a televisão pela “20th Century Fox” em 1965, para série sobre “big bands”. Na ocasião a banda de Basie contava com Sam Noto, Marshall Royal, Bobby Plater, Al Grey, Freddie Green e o “mágico” baterista Sonny Payne, entre outros. Foi ali também que Sal conheceu o arranjador Sammy Nestico, de quem era primo distante.
Sal estreou como líder em “Heavyweights” (Jazzland, 1961), acompanhado por Nat Adderley (trompete), Barry Harris (piano), Sam Jones (contrabaixo) e Walter Perkins (bateria) e considerada uma das suas melhores gravações. Apesar de bastante jovem – sequer havia completado 23 anos – ele se mostra bastante à vontade no papel de líder da sessão e não se deixa intimidar pela presença de músicos bem mais experientes.
No ano seguinte, foi a vez de “Comin’ On Up”, cujas gravações foram realizadas no dia 17 de outubro de 1962 e que foi lançado pela Riverside. A seu lado, o trompetista Sal Amico, o pianista Barry Harris, o contrabaixista Bob Cranshaw e o baterista Vinnie Ruggiero. A produção ficou a cargo de Orrin Keepnews, que também havia produzido o álbum anterior.
O disco abre com “Cheryl”, composição de Charlie Parker executada com uma vitalidade quase brutal pelo quinteto. Tudo aqui conspira para tornar sua audição um memorável acontecimento, desde a vigorosa pulsação imposta por Ruggiero até os arrojados solos de Harris, um mestre no idioma bop. Nistico elabora uma abordagem complexa, conjugando muita física com fluência de idéias, mostrando que não estava imune à grandiosa influência de Coltrane.
“Ariescene” é um tema de autoria de Paul Fontaine, interpretado em tempo médio, com uma atuação hipnótica do líder, que navega nas águas do post-bop com competência e autoridade. Em seguida, é a vez de “By Myself”, uma canção pouco conhecida da dupla Arthur Schwartz e Howard Dietz, onde brilham o elegante Harris e o irrequieto Amico.
Compositor inventivo, o líder comparece com a tórrida faixa tema e com a não menos empolgante “Samicotico”. A primeira é um bebop rápido e fumegante, com citações a “Cherokee” e um duelo arrebatador entre Nistico e seu xará Amico. A segunda incorpora elementos da música afro-caribenha, especialmente o mambo, e faz um amálgama com as harmonias enviesadas do bebop. Nesta, vale destacar o dedilhado hipnótico de Harris, que mergulha na tradição cubana e sacoleja com extrema perícia e malemolência.
A interpretação de “Easy Living”, gema de autoria de Leo Robin e Ralph Rainger, é emotiva e cálida, mostrando o lado sentimental do saxofonista, capaz de imprimir beleza e lirismo nas baladas, sem jamais entregar-se ao “fácil” ou ao pastoso. A atuação de Harris também deve ser ouvida com bastante cuidado, especialmente por conta da delicadeza do seu fraseado.
Para encerrar, um petardo da lavra de Miles Davis, “Down”, um blues pesado e musculoso, veículo mais que propício para a sonoridade encorpada e profunda de Nistico. Para alegria dos jazzófilos, “Comin’ On Up” foi lançado em cd, reunindo na mesma edição o não menos brilhante “Heaviweights”. A nota triste fica por conta da exclusão de “Just Friends”, que consta da versão em LP de “Heavyweights”, por falta de espaço no cd.
Após sua saída da orquestra de Count Basie, Sal resolveu tentar a sorte na Europa, estabelecendo-se na Suécia. Mas voltou a atuar, em diversas ocasiões, com o ex-patrão Woody Herman, participando de várias excursões patrocinadas pelo Departamento de Estado Norte-americano, entre 1967 e 1970.
A partir dos anos 1970, o saxofonista passa a residir em Los Angeles, tocando de 1974 até 1978 em diversas formações e ao lado diversos músicos de ponta: Terry Gibbs, Don Ellis, Tito Puente, Buddy Rich, Chuck Israels, Benny Bailey, Al Cohn, Walter Bishop, George Coleman, Carl Fontana, Nat Pierce, Michael Moore, Nat Adderley, Stan Tracey e Slide Hampton.
Com este último realizou temporada na Europa, além de participar de diversos concertos e da gravação de “Summit Big Band”, uma formação numerosa, composta por músicos americanos e europeus e dirigida por Slide Hampton e pelo trompetista Dusko Gojkovich, maior nome do jazz da antiga Iugoslávia. Destaque também para o álbum “Three Generations of Tenor Saxophone” (JHM), no qual Nistico divide os créditos com o fenomenal Johnny Griffin e com o saxofonista alemão Roman Schwaller.
De volta à Europa, Nistico associou-se a Benny Bailey em 1978, ao lado de quem montou um quinteto que se apresentava com regularidade em clubes da Alemanha. Retornando aos Estados Unidos no ano seguinte, passou a atuar como solista “freelancer”, como em 1980, quando integrou-se ao “National Jazz Ensemble” sob as liderança do baixista Chuck Israels. Como sideman, seu nome aparece nos créditos de álbuns de Mel Tormé, Buck Clayton, Sarah Vaughan, Curtis Fuller, Helen Merrill, Lionel Hampton e muitos outros.
Sal é considerado um velocista do sax tenor, capaz de tocar sem o mínimo esforço, um “bopper” excelente, com total controle da digitação e da respiração nos tempos mais rápidos e fraseado em “legato”, com idéias próprias e muito bem estruturadas, melódicas em qualquer andamento. Sua discografia, ainda que não tão vasta, reserva-nos bons momentos, distribuída em selos como Milestone, Ego, Bee Hive, Horo Hill e Red Records.
Em 1974, o saxofonista fez parte do quarteto do baterista Buddy Rich, com quem já havia trabalhado na década anterior. O grupo era integrado, ainda, pelo pianista Kenny Barron e pelo baixista Anthony Jackson. Nistico gravou na Itália, em 1975, o álbum “Jazz A Confronto” (Horo Hill), no qual se faz acompanhar pelo guitarrista brasileiro Írio de Paula e pelo pianista italiano Enrico Pieranunzi. O quinteto é completado pelo contrabaixista Alessio Urso e pelo baterista Afonso Vieira, o Afonsinho, mineiro de Cataguazes e amigo de infância do nosso querido Olney Figueiredo, o Figbatera.
No ano seguinte, Sal dividiu os créditos do disco “Swiss Radio Days” com o clarinetista Tony Scott e em 1978 foi a vez de “Neo Nistico”, para o selo Bee Hive, onde lidera um time de músicos formidáveis: Nick Brignola (sax barítono), Ronnie Mathews (piano), Sam Jones (contrabaixo) e Roy Haynes (bateria). O sopro potente de Nistico também pode ser ouvido no álbum “Nightbird”, de Chat Baker, gravado em 1984, em Nova Iorque, para a jazz World.
Nistico faleceu no dia 03 de março de 1991, em Berna, na Suíça, onde residia, em decorrência de um infarto fulminante. Tinha apenas 53 anos e era casado com a cantora Rachel Gould. Seu ultimo registro fonográfico foi “Empty Room”, de 1988, lançado pela Red Records, onde lidera uma sessão rítmica formada exclusivamente por músicos italianos: a pianista Rita Marcotulli, o baterista Roberto Gatto e o contrabaixista Marco Fratini.
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É sempre uma honra poder contar com a participação do querido Pedro “Apóstolo” Cardoso. No caso da resenha sobre Sal Nistico, todos os louros devem ser creditados a ele, verdadeiro autor da biografia do saxofonista aqui publicada. Minha participação, circunstancial, se limitou à análise das músicas do álbum “Comin’ On Up” e a algumas poucas informações complementares. Deste disco, foram extraídos os temas “Cheryl” e “Comin’ On Up” e do “Heavyweights” foram incluídas na radiola versões de “Heavyweights” e “Au Privave”.
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