QUATRO ASES E UM CORINGA
Música e outras coisas

QUATRO ASES E UM CORINGA



Em 1957, Paul Lawrence Dunbar Chambers Jr., no esplendor de seus 22 anos, já era um músico consagrado e bastante experiente – no ano anterior havia sido premiado pela Down Beat com o New Star Critics’ Poll. Nascido em 11 de abril de 1935, na cidade de Pittsburgh, ele começou seus estudos musicais ainda no ginásio, tocando sax barítono – o amor por sons mais graves já se revelava então.
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Em 1948, com a morte da mãe, vai morar com o pai em Detroit, cidade conhecida por seu efeverscente cenário jazzístico e onde troca o saxofone pela tuba – os graves, mais uma vez presentes em sua vida. Finalmente, em 1952, começou a ter aulas com um músico da orquestra sinfônica daquela cidade e se apaixona pelo contrabaixo, instrumento que jamais abandonará, até o fim da vida.

Naquela época, era um incansável ouvinte de jazz, dedicando-se a escutar com avidez os discos de Charlie Parker, Bud Powell, Dizzy Gillespie e outros heróis do bebop. Dentre as principais influências, ninguém menos que Oscar Pettiford, Charles Mingus e Ray Brown. Em 1953 começa a freqüentar os clubes de jazz de Detroit e se integra à cena local, tocando com grandes músicos estabelecidos na Cidade dos Motores, como Kenny Burrell, Barry Harris (de quem também foi aluno), Yuseff Lateef, Thad Jones, Curtis Fuller e outros.
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Antes de se firmar como um dos mais promissores músicos de Detroit, teve que enfrentar a ira paterna, que sonhava para o filho uma gloriosa carreira no baseball. Felizmente para o jazz, o jovem Paul não haveria de trocar o intimismo dos palcos e estúdios pela imensidão dos estádios e o baseball perdeu, assim, um grande rebatedor.

Em 1955, excursionou com o saxofonista Paul Quinichette, que o levou para Nova Iorque. Na Grande Maçã, Chambers logo se inseriu à vida musical, fazendo amizade, tocando e gravando com gente do naipe de Art Taylor, Lee Morgan, Hank Mobley, J. J. Johnson, Donald Byrd e Jackie McLean, que o apresentou a Miles Davis. Encantado com a sua habilidade, o trompetista logo recrutou Chambers para integrar o seu quinteto, que incluía, simplesmente, Red Garland, Philly Joe Jones e Sonny Rollins (que em breve seria substituído por um certo John William Coltrane).

Davis, que podia ser tudo menos bobo, usou essa formação para gravar alguns álbuns que entrariam para a galeria dos mais importantes da história do jazz, como os da célebre tetralogia do gerúndio – Relaxin’, Workin’, Steamin’ e Cookin’. Mais tarde, após trocar Garland por Bill Evans e Wynton Kelly e adicionar a seu combo o talentoso Julian Cannonball Adderley, Miles haveria de cometer um disco quase mítico, mas isso é outra história!

Ao mesmo tempo em que assumia o baixo no combo de Davis, Mr. P. C. (apelido dado por Coltrane) se consolidava como um dos mais disputados músicos dos anos 50/60, gravando incessantemente como sideman, sendo que ocasionalmente atuava como líder. Um dos primeiros discos em seu nome foi o excelente Paul Chambers Quintet, gravado em 19 de maio de 1957 para a Blue Note.

Neste álbum, o coringa Chambers convocou alguns dos mais renomados músicos da época e perpetrou um dos pontos altos de sua pequena, mas altamente recomendável, discografia como frontman. Alinhavam-se ao baixista, Donald Byrd (trompete), Clifford Jordan (sax tenor), Tommy Flanagan (piano) e Elvin Jones (bateria) – uma valiosa quadra de ases, que correspondem plenamente às expectativas que seus nomes suscitam no ouvinte.

O som do contrabaixo de Chambers é sempre articulado, incisivo e melodioso, de uma beleza comovente no acompanhamento e de uma exuberância invulgar nos solos. Esses predicados são uma característica bastante evidente nesta sessão. A primeira faixa, “Minor Run-Down”, foi composta por Benny Golson especialmente para este disco (como também foi a excelente “Four Strings”, esta como homenagem direta ao amigo contrabaixista). É um blues acelerado, com tintura de bebop, no qual Chambers faz uma convincente apresentação do seu estilo e sua quase sobrenatural capacidade para solar. Um delicado trabalho de Philly Joe com as escovinhas e um excelente duelo entre Byrd e Jordan (que se encarrega de um dos mais belos solos do álbum) são outros pontos altos da faixa.

“The Hand Of Love” é de autoria do próprio baixista, na qual o piano de Flanagan baila por sobre a melodia e extasia o ouvinte com a sua admirável delicadeza, no que é auxiliado pelos metais sobremaneira discretos e pelo baixo do líder, menos voluptuoso que em outras faixas. Na outra composição de Golson, “Four Strings”, o versátil Chambers esbanja categoria, desta feita usando o arco com absoluta destreza – outra de suas mais destacadas habilidades. Interessante frisar que essa mesma música é apresentada em take alternativo, onde Chambers, sem abandonar o arco, se utiliza mais da técnica do pizicato, com um resultado igualmente soberbo.

Uma esfuziante versão de “What’s New”, tocada em um surpreendente tempo médio, apresenta ao ouvinte toda a maestria de Donald Byrd na condução de seu instrumento. O trompetista perpetra um solo antológico, com toda a pujança de sua sonoridade, no que é seguido, magistralmente, por Jordan e pelo anfitrião. Em outro standard, “Softly As In a Morning Sunrise”, centrada no colóquio entre Chambers, Jones e Flanagan (os metais não participam da faixa), o líder dá uma aula magna de técnica e harmonização, configurando-se um dos momentos mais sublimes do contrabaixo jazzístico.

Um Donald Byrd endiabrado volta à cena na avassaladora “Beauteous”, outra composição de Chambers, e mostra porque é um dos mais sólidos pilares do trompete hard bopper. Resta a Jordan replicar o trompetista com um solo primoroso, o que evidencia um dos duelos mais emocionantes do álbum. O anfitrião não se faz de rogado e também participa da festa com um solo demolidor, sendo imediatamente seguido pelo piano lânguido de Flanagan e pela bateria vigorosa de Jones – todos absolutamente irretocáveis.

Outro músico que partiu cedo demais, Paul Chambers, que também tinha sérios problemas com a bebida e as drogas, foi abatido pela tuberculose em 04 de janeiro de 1969, quando sequer havia completado 34 anos. Inscreveu-se entre os mais distintos nomes do instrumento, tocando em uma época em que atuavam, no auge da forma, monstros da envergadura de Oscar Pettiford, Charles Mingus, Leroy Vinnegar, Ray Brown, Sam Jones, Curtis Counce, Red Mitchell, Scott La Faro, Percy Heath, Richard Davis e George Duvivier.

Imprimiu a sua marca personalíssima em álbuns históricos, como “Kind Of Blue”, de Miles Davis, “Tenor Madness”, de Sonny Rollins, “Blue Train” e “Giant Steps”, do amigo John Coltrane (que compôs “Mr. PC” em sua homenagem), “Full House”, de Wes Montgomery, e “The Blues And The Abstract Truth”, de Oliver Nelson, para citar apenas alguns dos muitos discos inscritos em seu impressionante currículo.

Um músico notável, sobre quem Herbie Hancock disse certa feita: “Paul Chambers era um grande gênio do baixo. Era incrível. Algumas das coisas que ele fez foram realmente inéditas, ninguém conseguiria imitá-lo. Eram coisas que somente ele poderia realizar, nenhum outro músico seria capaz de fazer o que Paul estava fazendo. Ele era fantástico”. Sábias – e verdadeiras – palavras.



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