Para quem se interessa pelas correntes free-noise-rock nem sempre é muito explícita a promiscuidade por trás desses gêneros. Se pensarmos em muitos ícones do rock mais visceral e inventivo teremos uma noção mais clara sobre a representatividade do jazz livre em sua estrutura. A questão não é especular quem influenciou quem, mas tentar compreender que há elos vitais entre os sons de um lado e de outro (mesmo que a massa de fãs, um pedaço em cada ponta, prefira ignorar o que se passa no outro extremo). Passamos pelos que dizem admirar o gênero, como Iggy Pop: “Coltrane me deixa louco. E tinha também caras como Albert Ayler. Tudo isso dava voltas ao nosso redor”; pelos que admitem certa influência, como Wayne Kramer, do MC5: “estávamos tentando seguir o rumo apontado por Sun Ra, Ayler, Coltrane, Pharoah Sanders e Archie Shepp. Essa era a música que nos inspirava”; e mesmo os que chamaram free jazzistas para alguma gravação, como Lou Reed, que convocou o trompetista Don Cherry para tocar em “The Bells”.
Talvez muitos fãs do Sonic Youth já tenham se atentado ao fato de Thurston Moore sempre falar em entrevistas sobre free jazz e livre improvisação. E o envolvimento de Moore é muito mais intenso do que o de um simples interessado no gênero: o cara já tocou e gravou com figuras como Evan Parker, Derek Bailey, William Hooker e Mats Gustafsson. Para ouvidos atentos e mais informados, não é difícil entender de onde vem as longas sequências de improvisação-noise presentes em muitas músicas do Sonic Youth: Pipeline/Kill Time, Total Trash, The Diamond Sea... Homenagens e participações também estão lá (mas acabam muitas vezes por passar despercebidas). Títulos como "Karen Koltrane" e "Mariah Carey [Kim Gordon] & The Arthur Doyle Hand Cream" ou a participação dos saxofonistas Don Dietrich e Jim Sauter, do Borbetomagus (uma das primeiras bandas free improvisation-noise)em "Radical Adults Lick Godhead Style". (ps: o saxofonista Arthur Doyle é um dos grandes nomes ignorados e esquecidos do free jazz mais underground, sendo sempre citado por Thurston Moore.)
Um dos mais presentes parceiros de Moore é o saxofonista sueco Mats Gustafsson. (Moore, Gustafsson e Jim O’Rourke (produtor de alguns álbuns do Sonic) tem um grupo, no melhor esquema free form, o Diskaholics Anonymous Trio). De sua parte, Gustafsson se proclama devedor do rock garage sueco e, com sua banda The Thing, uma das melhores surpresas dos últimos anos, tem explorado, em releituras free-instrumentais perturbadas, músicas de figuras como PJ Harvey, Yeah Yeah Yeahs, The Sonics e White Stripes. Para quem nunca viu, Thurston Moore e Mats Gustafsson em ação:
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