Callas, Counterpoint e Tenorhood: três vezes Perelman
Música e outras coisas

Callas, Counterpoint e Tenorhood: três vezes Perelman





Tem se tornado uma marca do saxofonista Ivo Perelman lançar diferentes álbuns simultaneamente. Mantendo a sintonia, o músico acaba de editar três novos títulos pelo Leo Records: “Callas”, “Counterpoint” e “Tenorhood”.



Os três álbuns que agora chegam ao mercado trazem Ivo Perelman em formações distintas, acompanhado por músicos com quem tem tocado de forma mais contínua desde meados de 2010. Podemos ouvi-lo nesse conjunto em duos e trio, ao lado de piano, bateria, guitarra e viola. Os discos foram gravados entre março de 2014 e março de 2015, em sessões no Parkwest e no Systems Two Studios, ambos no Brooklyn novaiorquino. A sonoridade do tenor de Perelman é marcada por mudanças nesse período de um ano em que os registros foram realizados. Como o músico disse em entrevista ao FreeForm, FreeJazz, no período entre essas sessões ele passou por problemas de saúde, uma lesão na garganta. “Acabei me tratando como se fosse um cantor e, no final, decidi fazer aulas de canto, o que acabou ajudando a aperfeiçoar minha técnica de respiração. Saí dessa crise com um bônus, um controle extra da respiração”, contou ele. E tal processo se refletiu no resultado captado, como fica claro ao se escutar os três títulos na sequência.

O registro mais antigo desse conjunto, feito no ano passado, é Tenorhood, um duo com o baterista Whit Dickey. Perelman tem em sua discografia diferentes encontros em duo com percussionistas. O primeiro foi realizado ao lado de Zé Eduardo Nazario (“Soccer Land”, 94). Depois viriam parcerias com Jay Rosen (“The Hammer”, 2000), Brian Wilson (“The Stream of Life”, 2010) e Gerry Hemingway (“The Apple in the Dark”, 2010). Em Tenorhood, Perelman homenageia sax-tenoristas importantes para ele, em seis faixas dedicadas a Ayler, Coltrane, Rollins, Webster e Mobley. Representantes de diferentes épocas e estilos, esses saxofonistas de alguma forma influenciaram Perelman, estando presentes, direta ou indiretamente, em sua música. Mas a intenção do instrumentista aqui não era a de citar esses ídolos sonoramente. Ou seja, a faixa “For Webster” não soa mais bop ou menos free que o tema “For Coltrane”. Isso porque o disco foi gravado sem que a homenagem a essa irmandade do tenor estivesse na mente de Perelman. Foi apenas após encerrada a sessão com Dickey que Perelman pensou que seria interessante fazer do registro a homenagem que se tornou. O álbum traz alguns dos momentos mais quentes de Perelman em muito tempo, como pode ser notado especialmente em “For Mobley” e “For Ayler”, em que podemos ouvir seu sax em modo mais explosivo, tenso. Parece que esse duo nunca se apresentou assim ao vivo, sendo essa uma parceria formada apenas para o álbum – esperamos que se mantenha e chegue aos palcos. Intensamente vivo, Tenorhood não fica nada atrás de “The Hammer”, até então o melhor registro de Perelman acompanhado apenas por bateria.




Em Counterpoint, Perelman surge em outra roupagem, ao lado de Joe Morris (guitarra) e Mat Maneri (viola). A formação remete à sua “fase de cordas”, de meados dos anos 2000, quando gravou muito dando prioridade a parcerias com violino, baixo e violoncelo – como nos discos “Soulstorm”, com Daniel Levin e Torbjorn Zetterberg, e “Near to the Wild Heart”, com Rosie Hertlein e Dominic Duval. Esse trio com Morris e Maneri ecoa o clássico “Three Man Walking”, em que o lugar hoje de Perelman era ocupado pelo saxofonista Joe Maneri (1927-2009). Mas esses dois álbuns são objetos distintos; o estilo de Perelman é bem diferente do de Joe Maneri. Em certo sentido, Counterpoint traz algo ainda de “Two Man Walking”, disco que Perelman gravou em duo com Mat Maneri no ano passado. Mas a adição de Morris traz um colorido distinto, com outra relação harmônica e dinâmica textural. Perelman se mostra muito à vontade com cordas, tocando sem pressa de encontrar os picos de intensidade que marcam seu modo de expressão. O disco é dividido em dez faixas que soam, de fato, como partes de um todo: o ideal seria ouvir o disco sem interrupção para melhor absorver sua proposta. Sendo um trabalho mais contemplativo que “Tenorhood”, Counterpoint demanda uma escuta com maior foco, especialmente nas faixas mais relaxadas, como em “Part 3” e “Part 9”. Sobre a sessão, disse Joe Morris: “Mat and I haven’t performed in this particular setting – as a trio with a horn – since that time [“Three Man Walking”], so this session was a chance for us revisit it with fresh ideas”.       
  



Callas é um disco singular na discografia de Perelman. Nunca antes o saxofonista havia soado tão lírico, com uma delicadeza expressionista que faz de alguns temas peças verdadeiramente comoventes, como “Tosca” e “Mimi”. Callas é um álbum duplo, com dezesseis faixas, todas tituladas com nomes de personagens interpretados pela homenageada soprano Maria Callas (1923-1977) em sua carreira. Ao piano, Matthew Shipp não poderia ser parceiro melhor, estando em fina sintonia com as ideias de Perelman. Mesmo sem querer emular o canto lírico ou alguma ária imortalizada por Callas, o saxofonista encontrou aqui uma voz que soa melódica como nunca: o tenor quase balbucia palavras, cantarola fazendo com que sintamos muito próxima a dramaticidade que permeia as personagens rememoradas – Violetta, Aida, Turandot, Leonora, Medeia, Amelia –, em um processo tão coeso que nos leva a esquecer que se trata, na realidade, de improvisação livre, nada de partituras ou roteiros preestabelecidos. Sem dúvida, Perelman estava embebido pela arte de Callas ao realizar esse trabalho – ele conta que estava obcecado pela obra da cantora à época –, podemos sentir sua aura pairando sobre a música, como uma faísca que ajuda a conduzir o saxofonista a campos ainda não muito explorados até então. O que virá depois? 



  
Enquanto estudava canto, passei a ouvir ópera com maior atenção e acabei me focando no trabalho da Maria Callas. Passei a ouvi-la cantando o tempo todo, surgiu uma inesperada paixão pelo trabalho dela, essa artista que em seu auge dava tudo que podia pela música, uma entrega total. Tenho colocado os discos dela e improvisado em cima, estudo seus andamentos, vibrato... Tem sido um fator de crescimento enorme, comprei partituras de árias, me concentro muito na respiração dela, é incrível.” (Ivo Perelman)




  


TENORHOOD  ****
Ivo Perelman / Whit Dickey
Leo Records




COUNTERPOINT  ****
Ivo Perelman / Joe Morris / Mat Maneri
Leo Records




CALLAS  ****(*)
Ivo Perelman / Matthew Shipp
Leo Records





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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura, tendo se especializado na obra do escritor António Lobo Antunes. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; também foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o jornal Valor Econômico






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